quinta-feira, 30 de junho de 2011

Proteção ao Conhecimento

Na visão criacionista da origem da vida encontramos importante passagem – no Livro de Gênesis – que deu início ao processo da humanização do planeta. Trata-se da questão emblemática da árvore do conhecimento do bem e do mal – proibida de se conhecer – plantada no meio do jardim do Éden que, depois do acesso não autorizado feito por Eva (a primeira mulher), teve como consequência a expulsão do paraíso, a dor do parto e a necessidade da prática do trabalho para o sustento dos homens.
Longe de mim a heresia, mas tivesse o todo-poderoso protegido aquela árvore (barreiras periféricas, sensor de presença, controle de acesso biométrico, etc.) não haveria espaço para a estultice da serpente em persuadir Eva a invadir terreno proibido, à procura do dado negado. Contudo o Deus oleiro tudo já sabia, pois é onipresente e onisciente.
Galeano explica que, hoje em dia, Maria mãe de Jesus, é a divindade mais adorada e milagrosa do mundo. Enquanto Eva condenou todas as mulheres, Maria as redimiu. São João Crisóstomo afirmava que, quando a primeira mulher falou, provocou o pecado original. Interessante é pensar o paradoxo da criação, pois Eva tirou o homem contemplativo do jardim do Éden e o transformou em um ser realizante.
Pelo viés da mitologia greco-romana – que também procura contar nossa história –, encontramos a figura de Prometeu, que concebeu os homens. O titã, depois de refletir, observou que neles faltava o conhecimento, razão pela qual acessou o Olimpo e roubou de Zeus o fogo, símbolo do conhecimento, e o entregou aos homens. Como forma de castigá-los, Zeus criou a primeira mulher, Pandora, que trouxe para a terra uma caixa, com a recomendação divina de que não a abrisse, pois nela estavam contidos todos os males. Pandora, não resistindo à curiosidade, abriu-a e os males escaparam, restando apenas um bem, a esperança. Quanto a Prometeu – por ter subtraído às escondidas o fogo –, foi acorrentado no Cáucaso onde deveria ficar por 30 mil anos, com um abutre lhe comendo o fígado durante o dia, pois à noite ele se regenerava, até que Hércules, após cumprir os seus doze trabalhos, devolveu-lhe a liberdade.
O conhecimento sempre foi perseguido desde os tempos primevos. As sociedades que se organizaram em grupos o valorizaram, protegendo-o primeiro em rituais com aspectos místicos – a mitologia que o diga – e depois, na atualidade, em ações mais concretas, envolvendo mecanismos de proteção como bem o faz a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) por meio do seu Programa Nacional de Proteção ao Conhecimento Sensível (PNPC).
Mas, retornando às antigas civilizações, verificamos que, na mitologia nórdica, Odin, o deus dos deuses, trocou um olho para obter conhecimento. Para os sumérios, o príncipe Adapa abriu mão da imortalidade para ter conhecimento. Ulisses, depois da guerra de Tróia, de volta a Ítaca, disse a seus homens: “Não nascemos para ser brutos, mas para perseguir virtudes e conhecimentos”. E após estas palavras – citadas por Dante Alighieri –, lançou-se ao desconhecido, atravessando as Colunas de Hércules (Gibraltar). Entretanto Netuno, deus do mar, por não permitir a busca do conhecimento, destruiu toda a frota, levando Ulisses e seus comandados para os abissais.
O pensamento daquele grego, nas palavras de Alighieri, revisita a modernidade na ideia de Coelho (2010) quando diz: “O mito de Adão e Eva carrega uma carga simbólica a ser recuperada. Ela é a heroína que tirou o Homo erectus da condição animal, tornando-o Homo sapiens, ciente e consciente das coisas deste mundo”.
Verifica-se que, na busca do conhecimento, o homem sempre pagou um preço. O rei idealizador dos Jardins Suspensos da Babilônia, Nabucondonosor, personificava a vitória do conhecimento, cujo nome se traduzia como “Nabu trifuna”. Nabu, o deus do conhecimento. No Egito antigo, aqueles que protegiam o conhecimento do Faraó com ele eram enterrados nas células mortuárias, depois do rito da sua passagem. A casa da verdade, a confraria do Faraó, citada pelo egiptólogo Christian Jacq, eram compostas pelos guardiões da luz do conhecimento, que a protegiam com a própria vida.
É no estudo das etapas da evolução humana que vemos os aspectos que nortearam a proteção ao conhecimento. Nossos ancestrais trouxeram técnicas diferenciadas que os protegeram inclusive dos glaciais. Enquanto o processo civilizatório se deu calçado em conhecimento compartilhado, o de conquistas ocorreu pelo conhecimento compartimentado. Foi assim na idade dos metais, quando os povos que dominavam o bronze, o cobre e o ferro sucumbiram ao aço, às armas e aos germes, como bem demonstrou Jarred Diamond.
Portugal se tornou senhor dos mares por 165 anos, graças a sua inventiva náutica, cujas cartas e instrumentos foram protegidos pela Escola de Sagres, fundada pelo infante Affonso Henriques. Hoje o Serviço de Inteligência do moderno Estado português – Serviço de Informações e Segurança (SIS) – protege as empresas lusas contra a espionagem industrial ou econômica. A indústria farmacêutica estado-unidense é tida como de segurança nacional e seu conhecimento gerado é protegido com o emprego da inteligência econômica pelos analistas da Agência Central de Inteligência (CIA). Em todas as nações, há preocupação pelo desenvolvimento de instrumentos para a proteção do conhecimento. No Brasil, de dimensões continentais, não pode ser diferente.
Relembremos o fato ocorrido em 2000, quando o mundo assistiu perplexo ao drama vivido pelos 118 marinheiros russos que morreram no submarino nuclear Kursk, nas águas geladas do Mar de Barents. À época, a marinha britânica e o governo norueguês detinham tecnologia para resgatar o submarino, que se encontrava há mais de 100 metros de profundidade. Mas o governo russo só autorizou o resgate depois da certeza de que o conhecimento ali custodiado estivesse definitivamente destruído, pois destruir também é proteger.
autor: Hércules Rodrigues de Oliveira - Professor Universitário

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