Na rica e intrigante história da espionagem, duas instituições viram sucumbir seus desejos, fosse pela aversão ou pela descrença da atividade de inteligência. A Igreja, que a entendia como falta de ética, não percebeu o movimento da Reforma e perdeu, entre outras obras, a oportunidade de ver o latim como a língua oficial do velho mundo. A Cavalaria medieval, dos nobres cavaleiros, a entendia como deslealdade, pois, não admitia o emprego de espiões para conhecer a força do inimigo e, por esta razão, teve o seu ocaso quando da invenção da pólvora, que matou o homem e o mito de seu código de conduta na guerra.
Fato é que, o filósofo e general Sun Tzu, certamente tinha razão quando registrou na Arte da Guerra, ou seja, bem antes da Igreja e das Cavalarias, que a habilidade e a perfeição do regente, se faz por intermédio de seu conhecimento sobre “as luzes e as trevas, o aparente e o secreto”, que o cercam, pois é nesse universo de incertezas, que repousa a arte de governar. Para Eric Frattini, a Igreja como resposta a esta necessidade, constituiu a Santa Aliança, seu serviço de espionagem. Por sua vez a Cavalaria feudal, de visão romanesca, se tornou uma das armas da força terrestre que passou a compor os exércitos nacionais, apoiando unidades de Inteligência militar.
Na rolança do tempo diferentes povos fizeram o uso da atividade de inteligência, mas foram com as Guerras Napoleônicas (1799 a 1815) que sua importância cresceu, pois aquele conflito envolveu a quase totalidade da Europa. Hoje a atividade envolve nações em todos os continentes, em um jogo silencioso de força e poder (A Guerra dos Tronos, que o diga), onde nesse teatro, não se permite ingenuidade sob o risco de ser devorado pelo seu concorrente.
Apesar de a atividade de inteligência contemplar três grandes gêneros (Defesa, Diplomacia e Segurança) o assunto algumas vezes não carrega em si a tão desejada densidade social, por não estar de forma presente no cotidiano e no imaginário das pessoas comuns, perpassando apenas por estudiosos da academia, Antunes (2001), Cepik (2003), Numeriano (2011), políticos, por intermédio da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (Creden), militares (Centros de Inteligência da Marinha, Exército e Aeronáutica), operadores de segurança pública (Polícias de modo geral) e operadores de Inteligência de Estado, função precípua da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN).
Importante passo deu o governo Dilma dando início ao processo, ainda que incipiente, de desvencilhar a pratica da atividade de inteligência de Estado, percebida até então, como sinônimo de repressão, como ocorreu no período conhecido como “anos de chumbo”, para assumir a sua importância como mais uma ferramenta de defesa comercial, haja vista a criação do Grupo de Inteligência de Comércio Exterior (GI-CEX) também conhecida como Inteligência antidumping, órgão que será vinculado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) e ao Ministério da Fazenda, por intermédio da Receita Federal do Brasil (RFB), instituído por portaria interministerial.
Dumping consiste na venda extraordinariamente abaixo do valor justo de um produto para determinado país visando prejudicar ou eliminar os fabricantes similares locais, com o tempo, eles dominam o mercado, pois não haverá mais concorrência. A inteligência antidumping terá como missão fortalecer a defesa comercial e proteger o mercado doméstico, buscando as importações suspeitas de preços fraudulentos e de sua adulteração de origem.
Malgrado a insistência de alguns em difundir a inexistência de um Sistema Brasileiro de Inteligência (SISBIN), e o proselitismo de que o melhor da inteligência está nas Forças Armadas, soa cabotino e menos democrático, pois querendo ou não, a inteligência de Estado pertence ao mundo civil.
A visão sistêmica promovida pela Lei 9.883, de 7 de dezembro de 1999, mostrou-se exitosa e vejam que, para o combate ininterrupto as importações ilegais e desleais, o GI-CEX poderá convocar o Departamento de Polícia Federal (DPF), o Instituto Nacional de Metrologia Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro), Ministério da Agricultura, Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) entre outros. É o Brasil, vencendo o preconceito e caminhando a passos firmes, com ordem e progresso.
(Hércules Rodrigues de Oliveira – Mestre em administração Novos Horizontes)
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